O recorde de inadimplência e a dívida que o banco não enxerga

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Quando o noticiário fala em inadimplência empresarial, a imagem que vem à cabeça é a de uma empresa devendo ao banco. Os números divulgados pela Serasa Experian na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, mostram um quadro mais amplo. Em agosto, o Brasil chegou a 9,3 milhões de empresas inadimplentes, novo recorde da série, com 68,2 milhões de dívidas em atraso que somam R$ 244,4 bilhões. Em um mês, aproximadamente cem mil empresas entraram na lista, já que em julho eram 9,2 milhões.

O que os números dizem e o que eles escondem

A variação anual caiu de 28,7% para 14,3%, o que pode sugerir alívio. A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, adverte que isso não basta: o crédito continua caro, o caixa permanece pressionado e o ambiente segue especialmente restritivo para os negócios de menor porte. As micro e pequenas empresas somam 8,8 milhões dos CNPJs inadimplentes, com dívidas de cerca de R$ 211 bilhões. Em média, cada empresa negativada acumulava 7,4 contas em atraso, o que indica que o problema raramente é uma obrigação isolada.

A dívida está fora do banco

O dado menos comentado é a composição. Segundo o levantamento, mais de três quartos das dívidas registradas são com credores não financeiros. O setor de serviços representa 31,7% das pendências, enquanto bancos e cartões somam 19,7%. Esse recorte vale para as dívidas negativadas, e não descreve o passivo total de cada empresa. Mesmo assim, ele ajuda a corrigir um vício de análise: concentrar a atenção na dívida bancária por ser a mais visível e a mais formal, enquanto outras obrigações vão se acumulando sem o mesmo acompanhamento.

Por que isso importa para quem decide

Para um executivo, a consequência é prática. Uma negociação com o banco que ignore as demais obrigações pode aliviar uma frente e deixar outra se agravar. Credores diferentes têm prazos, garantias e formas de cobrança diferentes, e as decisões tomadas com um deles repercutem nos outros. Sem uma visão do conjunto, a empresa corre o risco de resolver o que é mais barulhento e não o que é mais pesado para o seu caixa.

Por onde começar

O primeiro passo é um diagnóstico completo do passivo: quem são todos os credores, quanto se deve a cada um, quais garantias existem, o que está vencido e o que vence nos próximos meses. Com esse mapa, é possível discutir prioridades e escolher o caminho, que pode ser uma renegociação direta ou uma estruturação mais ampla. Nenhum resultado é garantido, e a análise jurídica de cada contrato é indispensável.